Saturday, 21 March 2026

O Extremo Oriente Imaginado

O Oriente que Sonhamos
A busca contemporânea pela prática de artes marciais orientais ditas “tradicionais” pode ser compreendida como um modo de aderir, ou melhor dito, um modo de "incorporar" um determinado sistema de signos muito mais próximo ao pensamento mítico do que ao pensamento histórico contemporâneo. 

 Minha perspectiva não é a de designar o pensamento mítico enquanto uma mentira ou ilusão camuflada, mas sim enquanto uma forma de linguagem: o pensamento mítico enquanto uma espécie de órgão que transforma o processo histórico social em natureza. 

Desta perspectiva, quando observamos os praticantes de artes marciais no Ocidente — e especificamente no contexto urbano do Brasil — que se voltam para disciplinas associadas ao Extremo Oriente, como o Kung Fu, o Karatê, o Judo ou o Tae Kwon Do, eles não estão apenas aprendendo técnicas corporais. Estão consumindo e reproduzindo um imaginário cuidadosamente construído: o do Oriente como lugar de sabedoria ancestral, disciplina moral, espiritualidade profunda e continuidade temporal ininterrupta.

Esse “Extremo Oriente” não é exatamente a China de hoje, nem o Japão contemporâneo, tampouco a Coreia real. Trata-se de um signo condensado, um espaço simbólico onde o tempo parece suspenso e onde tradições milenares permanecem puras, imunes à modernidade.
Ao vestir um uniforme percebido como "tradicional", repetir gestos ritualizados, evocar mestres antigos, o praticante participa dessa operação mítica: ele naturaliza uma construção histórica e sócio-cultural complexa, transformando-a em essência. 

A figura do Mestre — silencioso, disciplinado, portador de um saber quase esotérico — também é um signo central nesse sistema. O Mestre reforça a ideia de uma transmissão direta e incontaminada, como se o conhecimento fluísse intacto através dos séculos. Roland Barthes diria que aqui ocorre uma “roubada de linguagem”: apagam-se os conflitos, as transformações e as hibridações históricas, substituindo-os por uma narrativa de pureza e continuidade. 

Há, portanto, uma dupla operação. De um lado, o praticante busca autenticidade, profundidade e sentido, sempre no contraste direto com a fragmentação e superficialidade da vida moderna. De outro lado essa busca é mediada por signos já codificados, por imagens que circulam globalmente: filmes, livros, academias, linhagens imaginadas. 

Nesse contexto, vale lembrar que o mito funciona justamente porque oferece uma resposta simbólica a uma necessidade real. 

Neste sentido, a prática das artes marciais tradicionais pode ser melhor compreendida como um ritual contemporâneo de reinscrição de sentido no corpo. O corpo torna-se o lugar onde o mito se encarna: cada postura, cada forma, cada gesto carrega não apenas uma função técnica, mas uma densidade simbólica. 

Ao executar um movimento, um golpe, um gesto específico, o praticante não está "apenas" lutando: ele está participando na construção, na atualização de uma narrativa. A questão que aqui se coloca, não é a de "desmistificar" essas práticas, no sentido de negar valor a essas práticas; mas sim compreender o modo como elas operam enquanto linguagem. 

O “Oriente” buscado não é apenas geográfico: é um horizonte simbólico, um espelho onde o praticante projeta suas próprias carências, desejos e aspirações. E é justamente essa dimensão mítica que sustenta, paradoxalmente, a potência e o fascínio duradouros das artes marciais ditas tradicionais.