Minha perspectiva não é a de designar o pensamento mítico enquanto uma mentira ou ilusão camuflada, mas sim enquanto uma forma de linguagem: o pensamento mítico enquanto uma espécie de órgão que transforma o processo histórico social em natureza.
Desta perspectiva, quando observamos os praticantes de artes marciais no Ocidente — e especificamente no contexto urbano do Brasil — que se voltam para disciplinas associadas ao Extremo Oriente, como o Kung Fu, o Karatê, o Judo ou o Tae Kwon Do, eles não estão apenas aprendendo técnicas corporais. Estão consumindo e reproduzindo um imaginário cuidadosamente construído: o do Oriente como lugar de sabedoria ancestral, disciplina moral, espiritualidade profunda e continuidade temporal ininterrupta.
Esse “Extremo Oriente” não é exatamente a China de hoje, nem o Japão contemporâneo, tampouco a Coreia real. Trata-se de um signo condensado, um espaço simbólico onde o tempo parece suspenso e onde tradições milenares permanecem puras, imunes à modernidade.
Ao vestir um uniforme percebido como "tradicional", repetir gestos ritualizados, evocar mestres antigos, o praticante participa dessa operação mítica: ele naturaliza uma construção histórica e sócio-cultural complexa, transformando-a em essência.
A figura do Mestre — silencioso, disciplinado, portador de um saber quase esotérico — também é um signo central nesse sistema. O Mestre reforça a ideia de uma transmissão direta e incontaminada, como se o conhecimento fluísse intacto através dos séculos.
Roland Barthes diria que aqui ocorre uma “roubada de linguagem”: apagam-se os conflitos, as transformações e as hibridações históricas, substituindo-os por uma narrativa de pureza e continuidade.
Há, portanto, uma dupla operação. De um lado, o praticante busca autenticidade, profundidade e sentido, sempre no contraste direto com a fragmentação e superficialidade da vida moderna. De outro lado essa busca é mediada por signos já codificados, por imagens que circulam globalmente: filmes, livros, academias, linhagens imaginadas.
Nesse contexto, vale lembrar que o mito funciona justamente porque oferece uma resposta simbólica a uma necessidade real.
Neste sentido, a prática das artes marciais tradicionais pode ser melhor compreendida como um ritual contemporâneo de reinscrição de sentido no corpo. O corpo torna-se o lugar onde o mito se encarna: cada postura, cada forma, cada gesto carrega não apenas uma função técnica, mas uma densidade simbólica.
Ao executar um movimento, um golpe, um gesto específico, o praticante não está "apenas" lutando: ele está participando na construção, na atualização de uma narrativa.
A questão que aqui se coloca, não é a de "desmistificar" essas práticas, no sentido de negar valor a essas práticas; mas sim compreender o modo como elas operam enquanto linguagem.
O “Oriente” buscado não é apenas geográfico: é um horizonte simbólico, um espelho onde o praticante projeta suas próprias carências, desejos e aspirações. E é justamente essa dimensão mítica que sustenta, paradoxalmente, a potência e o fascínio duradouros das artes marciais ditas tradicionais.

