KUNG FU - TAI CHI CHUAN - NITEROI - RJ - BRASIL
ARTES MARCIAIS CHINESAS - KUNG FU - TAI CHI CHUAN - Marcelo Vidaurre Archanjo- Niterói RJ Aulas de Kung Fu e Tai Chi Chuan no município de Niterói RJ - treinos coletivos e privados - treinos online
Sunday, 22 March 2026
Tai Chi Chuan e a Rotina de Pequim
Saturday, 21 March 2026
O Extremo Oriente Imaginado
Sunday, 8 February 2026
KUNG FU e TAI CHI CHUAN: Shaolin e Aldeão
KUNG FU e TAI CHI CHUAN
Entre Mosteiros e Aldeias Chinesas
Kung Fu e Tai Chi Chuan: os monges guerreiros de Shaolin
Há mais de um século, os mosteiros Shaolin ocupam um lugar privilegiado no imaginário global das artes marciais chinesas. Entre a história e o mito, tornaram-se um símbolo condensado: o templo isolado nas montanhas, monges ascéticos treinando corpos e espíritos, técnicas secretas transmitidas em silêncio. No entanto, essa imagem , bastante amplificada pelo cinema do século XX e pela indústria cultural contemporânea, diz mais sobre as necessidades simbólicas da modernidade do que sobre a real gênese das artes marciais chinesas.
As referências míticas a Shaolin começam a ganhar forma ainda no final da dinastia Qing, quando a China enfrenta o colapso de sua ordem imperial e busca narrativas de resistência cultural. Histórias sobre monges guerreiros, templos incendiados e linhagens ocultas circulam em vários romances populares e óperas regionais. Esses relatos não pretendiam ser registros históricos rigorosos, mas sim veículos de memória coletiva, capazes de articular valores como lealdade, justiça e resistência diante da dominação estrangeira. O Shaolin mítico nasce, assim, como um espaço narrativo antes de ser um fato histórico consolidado.
Kung Fu e Tai Chi Chuan no Cinema: Shaw Brothers
No século XX, o cinema de Hong Kong transforma esse imaginário em linguagem visual global. Filmes das décadas de 1960 e 1970, especialmente aqueles produzidos pelos estúdios Shaw Brothers, cristalizam o mosteiro Shaolin como berço absoluto do Kung Fu. A câmera reforça a verticalidade das montanhas, a disciplina monástica e a ideia de um conhecimento marcial quase transcendental. Essa estética, poderosa e eficaz, simplifica uma realidade muito mais fragmentada: as artes marciais chinesas nunca foram um sistema centralizado, nem nasceram de uma única instituição.
Kung Fu e Tai Chi Chuan: a vida nas aldeias
Ao focar quase exclusivamente nos mosteiros, a narrativa cinematográfica obscurece o verdadeiro terreno onde essas práticas se desenvolveram de forma contínua: as aldeias. Foi na vida rural que o kung fu se enraizou como prática cotidiana, ligada à proteção comunitária, à organização de milícias locais e à transmissão familiar. Em regiões do sul da China, especialmente Guangdong e Fujian, os estilos marciais emergem de contextos marcados por disputas entre clãs, defesa de colheitas, controle de rotas fluviais e resistência a banditismo. O corpo marcial ali não é ascético, mas funcional; não busca iluminação, mas sim sobrevivência.
A cultura guerreira chinesa, com raízes que antecedem o budismo e o taoismo institucionalizados, também desempenha um papel central. Tradições militares, manuais de combate, exercícios corporais e concepções estratégicas circularam entre soldados desmobilizados, guardas locais e líderes comunitários. Esses saberes, ao serem absorvidos pela vida civil, transformaram-se em práticas híbridas, onde técnica, ética e identidade local se entrelaçam.
A religiosidade popular, frequentemente ignorada em favor do budismo Chan associado a Shaolin, foi igualmente decisiva. Cultos ancestrais, sociedades juramentadas e rituais de proteção espiritual moldaram o sentido simbólico do treinamento marcial. Golpes e posturas não eram apenas técnicas, mas gestos carregados de significado cosmológico e moral, muitas vezes associados a divindades locais ou heróis históricos.
Por fim, o teatro (especialmente a ópera chinesa) forneceu uma gramática corporal essencial. Movimentos estilizados, ritmo, expressividade e pedagogia do corpo atravessaram os palcos e os pátios das aldeias. Muitos mestres de kung fu foram também artistas itinerantes, e não monges reclusos. O que o cinema posteriormente atribuiu ao templo, na verdade, nasceu do cruzamento entre espetáculo, ritual e vida comunitária.
Assim, ao desmontar o mito de Shaolin como origem única das artes marciais chinesas, não se diminui sua importância simbólica. Pelo contrário, devolve-se à história sua complexidade. O Kung Fu não é fruto de um mosteiro isolado, mas de uma civilização inteira em movimento; forjado nas aldeias, moldado pela guerra, atravessado pela fé e encenado no teatro da vida cotidiana chinesa.
Saturday, 8 November 2025
Alecrim Dourado Espaço Holistico
Em meio à rotina agitada de Niterói, o Alecrim Dourado Espaço Holístico, localizado no bairro de Icaraí, se consolida como um ponto de encontro dedicado ao cuidado integral do corpo e da mente. O espaço reúne diferentes abordagens terapêuticas e práticas corporais que buscam promover equilíbrio, saúde emocional e qualidade de vida.
Dentre as atividades oferecidas estão: terapias integrativas, atendimento psicoterapêutico, shiatsu, massoterapia, reiki, aromaterapia, florais, acupuntura, biodanza, meditação, além de aulas de Yoga, Tai Chi Chuan e Kung Fu.
Com uma proposta voltada ao acolhimento e à escuta, o Alecrim Dourado se diferencia por integrar profissionais de diferentes áreas do cuidado e oferecer um ambiente tranquilo, voltado à reconexão e ao autoconhecimento
Segundo a idealizadora do projeto, Olinda Dourado, o espaço nasceu com o propósito de ser um refúgio urbano — um local onde cada pessoa possa desacelerar, respirar e reencontrar seu equilíbrio interior.
✨ “Mais do que um espaço de práticas, somos um ponto de encontro para o cuidado, a escuta e a transformação pessoal”, afirma a responsável pelo projeto.
O Alecrim Dourado Espaço Holístico está aberto para receber aos interessados em vivências para o bem-estar e desenvolvimento pessoal.
Para quem quiser conhecer esse oásis de paz e tranquilidade, o Alecrim Dourado esta localizado na rua Lopes Trovão 108, casa 9 - Icaraí, Niterói RJ. Basta apertar o número 9 no portão de entrada da travessa Eng. Celso Pasini que você será recebido com um sorriso acolhedor.
Outra opção é enviar uma mensagem por Whatsapp para pedir mais informações sobre as atividades e horários pelo número:
(21) 98 116 8648
Ou acompanhar o perfil Instagram:
Alecrim Dourado Espaço Holístico
Friday, 26 April 2024
Fei Hok Phai na Revista CombatSport
Fei Hok Phai na Revista CombatSport
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| Capa de apostila da Academia Tai Chi |
Comparar a quantidade de informações disponíveis na década de 1980 com as da atualidade é algo que não faz sentido diante da desproporção frente à gigantesca quantidade de dados disponíveis nos dias atuais. Qualquer pesquisa simples no Google nos apresenta um universo de informações que não somos capazes de esgotar no período de uma vida humana. O sonho da enciclopédia de Diderot (1713 - 1784) se tornou uma realidade dois séculos depois da existência do filósofo.
Na década de 1980 as informações sobre kung fu eram bastante excassas. Existiam alguns livros de autores nacionais, umas poucas traduções de livros estrangeiros, revistas em quadrinhos, algumas revistas especializadas e o material escrito que cada grupo produzia para informação interna.
Neste período - década de 1980 - a Ediouro publicou uma coleção de livros na serie Artes Marciais com vários títulos sobre kung fu: "Kung Fu para Principiantes" (C. Beissner e Al Dacascos); "Nunchaku: a Arma Mortal do Kung Fu", "Kung Fu, Curso Básico de Bastão", "Técnicas Básicas de Kung Fu", "O Kung Fu de Bruce Lee" (Marco Natali); "Kung Fu Wing Chun Tao Chuan" (Francisco d'Urbano); "Kung Fu para Briga de Rua", "Kung Fu contra Armas", "Chin-Na Kung Fu" (Francisco d'Urbano e Milton Brizola); "Kung Fu Shaolin Tao Chuan" (Francisco d'Urbano e Fernando Hartung); "Kuen-Tao o Livro Completo do Kung Fu" (Argemiro Gonzalez).
Nas minhas andanças cotidianas pelos sebos da cidade e nas livrarias do bairro, frequentemente eu me deparava com esses títulos, mas nunca adquiri nenhum deles. Fui presenteado com alguns desses títulos e outros peguei emprestado com amigos. Era bastante comum que esses livros circulassem entre os praticantes de artes marciais, ampliando o raio de influência de cada livro para muito além do seu proprietário.
Em Abril de 2022, pesquisadores de duas Universidades Federais (Guilherme Amaral Luz da Universidade Federal de Uberlândia UFU e Jose Otavio Aguiar Universidade Federal de Campina Grande UFCG) e de uma associação de artes marciais chinesas de Curitiba (Rodrigo Wolff Apolloni do Centro Ásia) realizaram uma entrevista com Marco Natali para a série "Pioneiros da Arte Marcial Chinesa no Brasil - episódio 1" (disponível no YouTube ). Na entrevista, Natali fala sobre sua trajetória nas artes marciais chinesas e suas publicações. Considerado como o principal autor de livros instrutivos sobre artes marciais chinesas nas décadas de 1970 e 1980, suas publicações levavam informações à milhares de pessoas no Brasil que não viviam nas grandes capitais.
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| Revista CombatSport n° 3 - Fevereiro 1988 |
No início do ano de 1988, em Fevereiro, me deparei nas bancas de jornais com uma revista que deixou todos nós que treinávamos Fei Hok Phai bastante surpresos e animados. A Revista CombatSport n°3 trazia em sua capa o Mestre Lope em uniforme de treino, segurando um "Kwan Dao" - um longo bastão ("kwan") medindo cerca de 1,80cm ao qual é adicionado em uma de suas extremidades a lâmina de um grande facão ("dao"). O "Kwan Dao" é uma das armas de maior prestígio entre os praticantes de kung fu. Esta arma é associada com o famoso guerreiro chinês "Kwan Kung" ou "Guan Yu" (160 - 210), herói protetor das artes marciais chinesas cuja imagem, presente na maioria dos locais de treino, é reverenciada no início dos treinos ou quando o praticante entra no local.
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| Kwan Kung ou Guan Yu (160 - 220 dC) |
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| Arnaldo e seu pai na banca de jornal e na sede da CombatSport (fotos publicadas no perfil da CombatSport no Instagram) |
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| O prédio da CombatSport esquina da Ipiranga com São João (foto de 1986; autoria do Arnaldo) |
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| Revista CombatSport n° 1 - Julho 1987 |
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| Na foto, Marcos Hourneaux |
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| Nas fotos, Marcos Hourneaux (e um aluno como auxiliar)demonstrando posturas de animais praticados no Fei Hok Phai |
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| Revista CombatSport n° 2 - Novembro 1987 |
"FEI HOK PHAY - CONHEÇA UMA DAS MAIORES ACADEMIAS DE ARTE MARCIAL CHINESA DO PAÍS! A Academia Tai-Chi, Yoga e Kung Fu de Mestre Lope Chiu Ping Lok, em Santo André, Estado de São Paulo, constitui-se num sólido prédio de cinco andares, cuja entrada transcende, logo de início, o bom gosto oriental. De dependências amplas e arquitetura muito bem equilibrada - em formas e cores - seu interior revela um admirável senso de harmonia e paz. O toque da Natureza - fonte inesgotável de energia cósmica - está presente em todo ambiente principal através de plantas e pequenas aves cujo canto vivifica o silêncio reinante, na ausência de alunos e instrutores."
"A revista CombatSport esteve presente em tão digno recinto com o intuito d elevar o leitor a imagem e o trabalho deste grande Mestre "da arte marcial chinesa" - verdadeiro marco na história da implantação do FEI-HOK-PHAY KUNG FU no Brasil. É, pois, sua presença, seu estilo, sua técnica e suas concepções de vida que procuraremos traçar, ainda que resumidamente, nesta reportagem exclusiva - só possível graças à gentil acolhida e á amável disposição de Mestre Lope em ceder-nos parte de seu precioso tempo."
"O INÍCIO: A FORMAÇÃO DE UM MESTRE: Nascido na província de Cantão, ao sul da China - local não muito distante da bela região montanhosa Tai San - já a partir dos 4 anos de idade o pequenino Chiu Ping Lok iniciava-se na tradicional arte marcial chinesa do Kung Fu através de seu tio Cham Mun."
"Na China, cada distrito dispõe de um instrutor de arte marcial cuja finalidade é ensiná-la a seus moradores, sendo, aliás, pego pelo próprio distrito. E foi assim que Chiu Ping Lok - apesar de sua pouca idade - além de praticar Hung Tao Choi Mei Gar, ainda ajudava na sua divulgação, talvez por ter inato o dom de ajudar o próximo e transmitir os bons conceitos adquiridos."
"Aos 15 anos de idade, Ping Lok e sua família tiveram, porém, que sair da China por questões políticas, passando a residir em Hong Kong. E foi lá que o talento de jovem Chiu Ping tomaria novos rumos, enriquecendo-se ao contato de outra modalidades de expressão artística e lutas marciais que dariam acentuado impulso em sua formação."
"Mestre Man Sin - amigo de seu tio - era um instrutor cego muito eficiente no Kung Fu e que, justamente devido á sua deficiência, aprendera a desenvolver e a transmitir uma sensibilidade quese extra-sensorial. Foi com ele que Chiu Ping Lok conseguiu aprimorar sua percepção num grau muito mais alto e refinado."
"Outras pessoas de destaque que também influiram em seu desenvolvimento foram: Mestre Lam-Fei-Hung (Ti Tao Hung), praticante do estilo Hung Gar e que tinha a peculiaridade de fazer demonstrações nas quais era capaz de entortar - e depois endireitar novamente - três barras de ferro batendo-as contra a cabeça, aliás calva; o Mestre Hui Sil Sin, do estilo Mo-Gar; e o velho Si-Pak, já mais para o interior de Hong Kong, muito bom principalmente em técnicas de bastão (Si-Mei-Kwan) e Pa-Kua-Kwan, além da técnica do Noi-Kun (chamado de "kung fu Divino" por enfatizar a energia interna, muito usada pelos antigos monges)."
"O que ainda muito contribuiu para a riqueza e variedade de sua formação marcial, foi ter um colega de treinamento e estudos escolares cujo pai trabalhava numa indústria cinematográfica local. Lá o jovem Chiu Ping pôde adquirir muitas experiência em vários estilos e métodos de combate, treinando e atuando como figurante em vários filmes chineses."
[Fotos 1 - 2 - 3 pág 27]
"UM ARTISTA COMPLETO: Na China, a parte cultural - além de ser bem diversificada - é essencial à formação do indivíduo, tanto quanto o é a aprendizagem de uma arte marcial. Temos um bonito exemplo dessa criatividade artística na tradicional "Dança do Leão" em que crianças e adultos usam figuras confeccionadas em arte da mais rara perfeição e beleza."
"Aos 8 anos de idade, portanto, o garoto Chiu Ping recebia suas primeiras noções de pintura de Than Sai Sil - outro tio seu - e complementava seu desenvolvimento artístico através de novas formas de expressão, quais teatro e música, na modalidade de vários instrumentos."
"Já em Hong Kong, Chiu Ping Lok veio a entrar em contato com o tradicional Tai Chi Chuan e aprofundar-se nos conhecimentos dessa "Arte da Harmonia", embora, na época e devido ao ímpeto de sua pouca idade, achasse aquela movimentação muito lenta e carente de ação."
"Entre outros enriquecimentos que foi adquirindo posteriormente, incluiu noções de acupuntura - com Mestre Rui - e de Yoga - através de um grupo hindú então excursionando pela região. Os benefícios da milenar arte da Índia logo se fizeram sentir no jovem Ping Lok, com relação a sua importância para os sistemas corporais respiratório e circulatório, assim como atividade relaxante sobretudo quando praticada após a execução dos movimentos mais duros do Kung Fu."
"O ESTILO FEI HOK PHAY E A ACADEMIA DE SANTO ANDRÉ: Segundo Mestre Lope, o estilo Fei Hok Phay surgiu de várias fontes e de ainda outros estilos - principalmente os do Sul da China. Da mesma forma que, ao se organizar um bonito arranjo de flores num vaso é preciso escolher os vários elementos que vão compor a obra final, os melhores elementos de cada estilo foram sendo selecionados e adaptados para formar o Fei Hok Phay, num processo em que a evolução e a concretização do novo estilo deu-se naturalmente. O nome "Fei Hok Phay" liga-se diretamente à imagem de uma garça em pleno vôo, pois, tal como a representação daquela ave, Mestre Lope veio de tão longe, com uma bagagem tão rica portadora de inúmeras sementes valiosas que viriam florescer aqui, no Brasil, local onde seu estilorealmente desabrochou e tomou forma definitiva - fruto de todos os conceitos aprendidos anteriormente de raízes tão remotas e profundas, com os grandes mestres da China e de Hong Kong."
[Fotos 4 - 5 - 6 pág 28]
A Academia de Mestre Lope, em Santo André, é, pois, uma organização que visa, antes de tudo, a mais alta qualidade de ensino, no sentido maior que essa palavra possa abranger. Mestre Lope faz questão de afirmar que prefere um número mais reduzido de alunos realmente dedicados e respeitosos à arte do que um grande grupo disperso e desinteressado."
"O pagamento pelas aulas é quase simbólico, pois a Academia cobra uma das mais baixas mensalidades do país. Todavia, o retorno dado ao aluno é maior do que uma "caderneta de poupança" - segundo as sábias palavras do Mestre - pois ao aprender a arte Fei Hok Phay o aluno está fazendo um "investimento espiritual" para si mesmo! A prática dessa arte marcial lhe dará maior segurança pessoal, ensinar-lhe-á comportamento adequado na sociedade, auxiliará sua saúde e seu desempenho no trabalho, entre outros benefícios. O conceito de "aprender para si", ou seja, o auto-aprimoramento ou crescimento interior é ilustrado pelo Mestre Lope de uma maneira bem pitoresca e marcante: diz ele a seus alunos "Vocês sairiam à rua com um maço de dinheiro no bolso, metade para dentro e metade para fora da roupa? Assim, seus conhecimentos aqui adquiridos não deverão ser motivo de exibicionismo ou procura de encrenca, mas sim de auto-afirmação aliada à humildade que é uma sábia virtude. A vida é um processo de aprendizagem contínua, e por mais degraus que subamos sempre haverá alguém numa posição superior. O "1 lugar" é uma utopia! Não se aprende "para ser o melhor", aprende-se para crescer interiormente, para o burilamento e a formação do caráter. O "ensino" e a "aprendizagem", na verdade, são uma permuta. Professor e aluno integram-se num processo de troca de experiências ... receptividade e doação são processos comuns às pessoas de boa vontade. Entre três indivíduos, por exemplo, um pode ser professor do outro, num assunto diferente. A satisfação interior é o que importa!"
"É nesse sentido mais alto que Mestre Lope Chiu entende o significado da palavra "educação"."
"É por isso que seu aluno-instrutor mais novo, Jair Mello de Lima possui mais de 12 anos no Kung-Fu.
"Aparentemente isso poderia significar que o processo de expansão da arte é longo demais ... Porém, na realidade, um bom instrutor poderá formar 10 outros que, por sua vez, levarão a arte seriamente a outros 100, e assim por diante. Nada impede, ainda, que um aluno-instrutor de Fei Hok Phay faça uma viagem para o exterior, por exemplo, e lance em nova terra as sementes do estilo que lá irão florescer também. O importante nesse processo é a seriedade do trabalho. É claro que, para obter bons resultados, é preciso que o vínculo à fonte, à origem, nunca seja cortado. Por isso o aluno-instrutor que saiu da Academia de Santo André deverá voltar periodicamente ao local onde se iniciou a fim de por seus conhecimentos em dia e aprimorar-se cada vez mais. Assim como, numa família, os filhos sempre trarão o sangue do pai, na tradição Kung Fu os discípulos Ton Tai (filhos) estarão sempre ligados à liderança do Sifu (pai) até o dia da morte deste quando então o aluno mais velho e capacitado tomará seu lugar na missão de perpetuar a arte."
"UM POUCO DA CHINA NO BRASIL: Apesar das diferenças naturais e culturais entre chineses e brasileiros, Mestre Lope consegue transmitir com naturalidade e dedicação, grande parte de sua bagagem cultural aos praticantes de outra raça, com s devidas e necessárias adaptações. O importante é passar adiante um modelo, as mudanças virão de acordo com o conhecimento, a criatividade e a capacidade de cada instrutor. E no decorrer dessas mudanças, por vezes, o resultado supera as espectativas. Dando-se um elucidativo exemplo, Mestre Lope cita que a cor verde, advinda da mistura do amarelo com o azul, consegue ser mais viva e mais chamativa que o próprio azul pálido original! Assim, é natural haver mutações na passagem do ensino de um mestre chinês a alunos brasileiros, mas, nesse processo, muitos bons resultados podem ser conseguidos."
"Embora a diferença de ritmo de aprendizagem seja acentuada, entre Brasil e China, no que se refere à prática da arte marcial, Mestre Lope tem encontrado aqui elementos realmente bons e capazes, possuidores de um jeito todo especial para treinar e assimilar a arte com relativa rapidez, por vezes apenas observando atentamente uma forma ou kati ensinado, por exemplo."
"Na China, uma criança se inicia na arte marcial a partir dos 5 anos, aproximadamente, e com a mesma facilidade do pequeno moleque brasileiro que já sai pelas ruas com uma bola nos pés como se tivesse o futebol no sangue. Por isso, 10 anos de prática lá equivaleriam a uns 20 anos no Brasil, para se alcançar os mesmos resultados. Lembremos que com apenas 15 anos de idade, Mestre Lope já era um instrutor altamente capacitado. Essa defasagem consegue ser superada, contudo, pela dedicação e pelo trabalho incansável de um idealista como o é Mestre Lope Chiu."
"Dominando os dialetos cantonês, taisan e mandarim (de Pequim), Mestre Lope consegue fazer com que seus alunos falem o idioma chinês no que se refere a todos os termos técnicos e cumprimentos do estilo praticado em sua academia."
"Tendo participado de quatro programas de 30 minutos cada na TV Cultura, ainda em 1974, abordando temas específicos chineses como: "Kung Fu", "A Dança do Leão", o "Tai Chi" e "A Importância da Compreensão da Vida", Mestre Lope vem trazendo uma boa parte da cultura de sua tão longínqua terra até nós. Tem, ainda, vários artigos seus em jornais chineses aqui publicados, uma entrevista na revista "Planeta", além de bela reportagem sobre sua pessoa e arte, apresentada na revista "China em Construção" (editada em 10 idiomas, inclusive o português)."
[Fotos 10 - 11 pág 30]
"E é assim que Chiu Ping Lok - hoje Mestre Lope Chiu - este incansável batalhador da bela e milenar arte chinesa, de um humilde início e com uma enorme vontade de doar e expandir sua infindável riqueza interior, tem conquistado o respeito e o afeto de centenas de corações brasileiros."
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| Salão de Kung Fu |
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| Sala de Yoga |
Saturday, 20 April 2024
Fei Hok Phai em Niterói 2/2
Fei Hok Phai em Niterói- 2/2
Após assistir um treino de kung fu e ficar muito impressionado com a elegância, a velocidade e a potência dos movimentos e dos chutes, finalmente iniciei meus treinos na arte.
No ano de 1985, "Índio" (chamávamos Valdemir Machado pelo seu apelido ou pelo termo "Shiren", professor) dava aulas em duas academias no bairro de Icaraí: "Moksha" (rua Lopes Trovão, 117) e "AquaFish" (rua Lemos Cunha, 355).
Não tenho uma memória precisa do local onde comecei a treinar, se foi no "Moksha" ou no "AquaFish". Nessa época eu estudava de noite na Universidade Gama Filho, no bairro da Piedade, zona norte do Rio de Janeiro. Estava iniciando o curso de Comunicação Social que interrompi no ano seguinte. As aulas da Faculdade começavam as 19 horas e iam até as 22 horas. O percurso de Icaraí até o bairro da Piedade era feito em um onibus fretado por alunos da Gama Filho e geralmente demorava 1 hora no trajeto. Os horários das aulas no "Moksha" eram de tarde, e coincidiam com o horário que eu pegava o ônibus para a Gama Filho. No "AquaFish" tinham dois horários de treino. Um horário noturno (quando eu estava na Faculdade) e outro diurno, não muito cedo, em torno de 9:00 ou 10:00.
Por exclusão, o certo é que eu iniciei os treinos no AquaFish. O foco da academia era natação infantil, mas também oferecia outras atividades esportivas: ginástica localizada, jazz, karate, capoeira e kung fu. Funcionava em um clube da Associação Hebraica e o local era bastante amplo. O salão de treino era enorme, em torno de 100 m². Com várias turmas de natação infantil acontecendo durante toda a manhã e tarde a animação infantil sempre tomava conta do local.
A turma da manhã era pequena e os treinos eram tranquilos. O que mais me lembro desse período inicial de prática era minha extrema dificuldade em realizar os movimentos novos e a minha falta de flexibilidade. "Esse tal de kung fu tem uns movimentos legais mas muito estranhos", costumava pensar.
No ano seguinte, após interromper o curso de Comunicação Social, passei a treinar no "Moksha". Não lembro o motivo exato da mudança de local e horário. Uma possibilidade é que a turma da manhã fosse muito pequena e Índio tenha fechado o horário; outra possibilidade é que eu tenha achado melhor treinar de tarde no "Moksha", pois ia iniciar um curso de preparação para exame vestibular matutino.
Fato é que dei continuidade aos meus treinos no "Moksha", que não era propriamente uma academia de ginástica. O "Moksha" era uma espécie de centro cultural. Funcionava em um estreito prédio de 3 pavimentos. No andar térreo ficava uma pequena recepção; um estreito corredor nos conduzia a uma escadaria mais estreita que subia direto para o terceiro andar, onde ficava o salão de treino. Essa estreiteza da recepção, do corredor de entrada e da escadaria era resultado do compartilhamente do andar térreo e do segundo pavimento com uma loja. Originalmente o prédio era uma casa, na qual residia a família da Ana (que além de administrar o local também dava aulas de yoga). Após uma reforma estrutural, no local passou a funcionar uma loja e o "Moksha". Atualmente no mesmo local funciona o "Aizen" (o prédio azul na foto abaixo), um espaço de treino para Aikido e Yoga. Ana Lucia Felippe e seu marido, Antonio Augusto Felippe (professor de Aikido) coordenavam as atividades (em 2024 continuam coordenando).
O termo "Moksha" tem origem no sânscrito antigo com o sentido de "liberação", e de maneira bem ampla faz referência à libertação do eterno ciclo de (re)nascimento e morte ao qual todos estaríamos confinados de acordo com o pensamento Vedanta.
No "Moksha" de Icaraí aconteciam diversas atividades: yoga, karate, aulas de reforço escolar, terapias diversas, shiatsu, aikido e kung fu. Pelo que me lembro de conversas com Ana, o local foi idealizado pelo irmão dela. A idéia era ser um centro de difusão dos ideais daquilo que na década de 1980 chamávamos de "Nova Era".
A origem da "Nova Era" pode ser localizada no movimento de contracultura da década de 1960. Duas organizações são geralmente indicadas como os principais locais de transformação e difusão de um amplo movimento cultural em uma mistura algo eclética de crenças e práticas espiritualistas: Esalen Institut (na Califórnia, USA) e Findhorn Foundation (Escócia, UK).
O "Moksha" era - e o "Aizen" continua sendo - um local bastante tranquilo e agradável para a prática de atividades corporais. O salão de treino no terceiro andar era uma sala pequena e coberta por tatames - posteriormente esta sala foi ampliada, incorporando uma varanda que existia e tornando-se o salão de treinos atual (foto abaixo). O silêncio local contrastava com os ruídos vindos da vizinhança e da rua.
Até hoje mantenho contato com alguns companheiros de treino de kung fu deste período: Adriana Facina e Pedro Rocha foram alguns que iniciaram seus treinos no "Moksha" e continuaram treinando por muitos anos. Não lembro de todos os alunos que treinaram no "Moksha" (na verdade me lembro de poucos), mas lembro particularmente de um aluno - Laerte -, fã de Bruce Lee, que colecionava todas as informações que encontrava sobre o pequeno dragão e suas estratégias marciais.
Nessa época o "Shiren" usava uma camisa de treino com duas imagens estampadas em silk-screen: na frente um tigre saltando e nas costas uma garça voando. Eu gostava bastante dessa composição, mas me identificava particularmente com o tigre saltando. Afinal, uma garça voando não era uma imagem que eu associava com o vigor e a habilidade dos movimentos que praticava.
Foi quando o "Shiren" nos informou que estava preparando uniformes de treino: calça preta de helanca (que é um material altamente elástico) e uma t-shirt branca de algodão com as "imagens" em silk-screen. Aguardei ansioso a chegada da camisa com as "imagens": o tigre e a garça! .. principalmente com a imagem do tigre saltando. Quando as camisas chegaram, tive uma grande surpresa ao constatar que o tigre havia sido substituído por um pequeno símbolo do "Yin-Yang" em vermelho.

"Cadê o tigre?", foi minha pergunta ao "Shiren". Foi neste momento que fiquei que o tigre era do uniforme da "Academia Técnicas" de São Paulo. O animal símbolo do Fei Hok Phai (estilo da garça voando!) era uma "garça voando" estampada nas costas com os ideogramas correspondentes. Fiquei pasmo! "Como assim uma garça?", pensei. Após alguns reclames me resignei tristemente à nova descoberta. "Quem não tem tigre, caça com a garça!", fazer o que ne?
Realmente, naquela época não suspeitava que além da bicada com a ponta dos dedos unidos e do grito agudo ("Hók"!), a técnica da garça está associada com caneladas, cotoveladas, joelhadas e bloqueios com os antebraços; com as esquivas e os saltos.
Em 1986 voltei a treinar no "AquaFish", com a camisa da garça e no horário noturno. A turma era numerosa, muitos jovens, e varios já treinavam há mais tempo que eu. João (o karateca) era um deles. Sua namorada, Cristina, também praticava. Os irmãos Luciano, Nemo e Vicente Judice; Juan e Oscar Lee (dois "coreanos" exímios chutadores); Luciano "Máquina"; Sergio Del Picchia e seu filho Marquinhos; Jorge e seu irmão; além de muitos outros.
(Na foto: Nemo Judice e Juan Lee no Aqua Fish)
Nessa época, fizemos várias demonstrações públicas: em eventos de artes marciais; em campeonatos de dança; em shopping center; em aniversário (!); em praças; em teatros. Nossas apresentações não eram no mesmo nível técnico dos professores paulistas. Mas, curtiamos as "roubadas" (era assim que chamávamos) que o "Índio" nos colocava. "Roubadas" principalmente por conta de nossa insegurança juvenil que se intensificava nas apresentações. Entretanto, o resultado dessas "roubadas" foi positivo. Não somente pelas divertidas memórias, mas sobretudo pela experiência em se expor publicamente, fora do ambiente seguro e familiar da academia.
No final do ano de 1987, um grupo de alunos que já treinavam há pelo menos três anos participaram do primeiro exame de faixa realizado em Niterói nas dependências do Clube de Regatas de Icaraí. Até essa época não usávamos faixa ou algum outro sinal indicativo do nível tecnico do praticante. Em Santo André SP isso era feito por uma composição de cores nas estampas da camisa dos praticantes e duas cores de faixa - vermelha e preta. Estampas e faixa na cor vermelha para os alunos e estampas na cor azul e faixa preta para os professores mais graduados. "Índio" sempre usava a faixa preta amarrada na cintura; algumas vezes usava a camisa de sua antiga academia de São Paulo, a "Academia Técnicas", outras usava a camisa da "Academia Tai-Chi" de Santo André e também usava a camisa de uniforme que ele mesmo fez. Nós usávamos apenas a camisa de treino com o simbolo e a garça estampados em vermelho, sem faixa.
Para realizar esse primeiro exame de faixa vieram alguns professores de São Paulo: Marcos Hourneaux (Marcão), Jair Lima, Nilson Alves das Neves e Valdir Machado (irmão do "Shiren"). Foram avaliados os seguintes alunos: eu, Luciano "Máquina", Juan Lee, Oscar Lee, Luciano Judice, Nemo Judice, Vicente Judice e Pedro Rocha.
Além de informações gerais sobre o estilo Fei Hok Phai, fomos principalmente avaliados na execução das rotinas técnicas, os "katis": "Lim Pou Chuan" (treinando punhos e bases) que é a primeira rotina no Fei Hok Phai; "Sam Sin Tui Tcha" (luta simulada das "três estrelas" - as famosas três batidas de braço que praticamos para condicionamento dos antebraços); "Tam Tui" (chute ou pernas de Tam - uma longa rotina composta por 12 sequências, que demoravamos cerca de seis meses para aprender e mais uns seis meses praticando); "Hok Chuan" (movimento da garça), a rotina que é a "marca registrada" do Fei Hok Phai - uma rotina que Juan Lee executava com uma qualidade impecável; geralmente parávamos de treinar para ver Juan treinar essa rotina; e o "Pou Sam Chuan" (movimentos dos punhos que partem montanha), uma rotina forte, veloz, com gritos vigorosos e composta por técnicas de tigre. Não me lembro se já praticavamos a rotina de bastão do Fei Hok Phai ("Lim Wan Kwan"). Acho que estávamos começando a praticar esta rotina e apresentamos os movimentos mas sem que os professores fizessem uma avaliação real de nossa técnica.
No geral, percebemos que não tínhamos muito conhecimento das informações básicas do estilo. Sabíamos contar até dez no dialéto cantones e com sotaque carioca. Sabíamos os nomes das rotinas mas sem muita certeza da tradução dos nomes ou da técnica que utilizavamos. Enfim, terminamos o exame com uma faixa vermelha para amarrar na cintura e com muita certeza do quanto que teríamos que aprender e treinar a mais .. e seria bastante coisa! Usei esta faixa vermelha até fazer meu exame para faixa preta em 1990.
Neste período do exame também fizemos algumas demonstrações, auxiliando os professores de São Paulo. Da primeira vez que eles vieram até Niterói trouxeram um grupo grande de alunos além de vários faixa-pretas do estilo para auxiliar nas demonstrações. Desta vez vieram apenas os quatro professores. O grupo de apoio éramos nós.
Me lembro especialmente de uma apresentação que fizemos no Teatro da UFF. Em algum momento me dei conta que o kung fu não era apenas mais uma atividade que eu praticava nas horas vagas, um "passa-tempo". O kung fu era uma prática que constituía o meu cotidiano (ao lado de outras) e que ocupava uma parte importante de minha vida.
Com o passar dos anos compreendi, a respeito das rotinas, que mais do que aprender técnicas de luta - que é um aspecto importante nas artes marciais -, o fundamental é o desenvolvimento e a manutenção de nossa percepção, consciência e inteligência corporal.
Deste período inicial do Fei Hok Phai em Niterói, ainda guardo alguns impressos com informações básicas que o "Shiren" nos deu. Um desses impressos é uma folha com ilustrações do próprio Valdemir com as posturas básicas de kung fu e os termos correspondentes. Utilizavamos esse material para decorar os nomes em "chinês" das posturas utilizadas nas rotinas técnicas.
No início de 1988 tivemos uma enorme e gratificante surpresa. No mês de Fevereiro, a Revista CombatSport publicou em cinco páginas (a Revista tinha 40 páginas), uma extensa matéria sobre o estilo Fei Hok Phai e seu fundador, Chiu Ping Lok. Ilustrada com várias fotografias do Mestre Lope em posturas de kung fu, além de fotos de sua academia, a matéria trazia informações básicas e preciosas sobre a história do Fei Hok Phai.
A Revista CombatSport era editada pela "N.A. Artes Gráficas Editora" com sede em São Paulo capital e estava em seu primeiro ano de atividade. Essa foi sua terceira publicação, com uma tiragem de 20 mil exemplares. Na capa da Revista, o Mestre Lope ocupava a parte central, em trajes de treino de kung fu, segurando um "Kwan Dao" (um longo bastão - "kwan" - com cerca de 1,80cm alongado por uma lâmina de facão - "dao" - em uma das estremidades). O "Kwan Dao" é uma das armas de maior prestígio entre os praticantes de Kung Fu. Também é conhecido como a "Lâmina do General", uma referência ao famoso guerreiro chinês "Kwan Kung" (160 - 210), herói protetor das artes marciais chinesas, sempre honrado nos altares ancestrais de suas escolas.
No próximo texto publicarei a integra desta matéria da CombatSport, acrescentando mais informações sobre o Fei Hok Phai e o Mestre Lope.
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